sábado, 24 de junho de 2017

Na Contramão da Gentileza - Crônica

     Na Contramão da Gentileza  

Hoje em dia, se a gentileza tivesse idade, seria a de uma bela moça. E se pudesse ser medida, teria o mesmo comprimento de uma minissaia; dessas bem curtas e tão justas que parecem ter sido postas a vácuo para poderem passar por quadris, quase sempre, tão avantajados.
Todos têm medo de perder o emprego, não é mesmo?, ainda mais quando o cidadão está cheio de dívidas para pagar, mas arriscá-lo quando se pode fazer uma gentileza é algo inevitável.
Depender de ônibus para voltar para casa ou para ir a algum lugar é algo irritante, ainda mais quando o veículo demora a passar e, quando passa, para variar, está lotado. Para piorar, essas obras de organização urbana, que começam sempre no fim de um mandato de algum político, acabam com a rotina dos desavisados. Os pontos mudam de lugar; os ônibus não param mais no mesmo ponto de antes; as avenidas se tornam contramão, e todos ficam na mão… sempre! É um caos até que todos se adaptem, ou alguém seja eleito.
Certo dia, uma senhora, perdida em meio à desorganização das obras, deu sinal para um ônibus, e o motorista fingiu não ver. Mesmo assim, ela, com seu passo trôpego, aproveitou que o farol havia fechado e foi até o meio da rua, mas o motorista não abriu a porta. Desconsolada e envergonhada, talvez com um palavrão preso na garganta por sua educação cultivada havia anos, ela atravessou a rua para pedir informação.
— Eu não abro, não! — disse o motorista, todo cheio de pudor, a outro motorista que estava de carona. — Imagina se eu abro, e ela é atropelada, vão dizer que ela só atravessou a rua porque eu abri a porta. Hã, imagina?!
— É verdade — concordou o outro, sem muita convicção, pois mesmo o amigo de profissão não tendo aberto a porta, se a senhora fosse atropelada, alguém poderia dizer que ele abriu.
— E, além de eu ter que explicar tudo, arrisco perder o meu emprego! Pode uma coisa dessa?!
— Tá certo — concordou novamente o outro. — Tá certo!
Isso que é competência profissional! Quanta observância!!! Nada de desobedecer às normas impostas pela empresa, não é mesmo? Mas tal ética e pudor desceriam ralo abaixo poucos pontos depois, pois um belo par de pernas generosamente exposto, em virtude do palmo de minissaia jeans, atravessou a rua correndo, acenando com a mão para o motorista, que não pensou duas vezes e parou o ônibus.
— Obrigado — agradeceu ela, sem ao menos se preocupar com o gênero da palavra. Talvez, para alegria dos homens babões de plantão, o cérebro dela tenha encolhido juntamente com a saia.
— Aqui não é ponto… — o motorista disse, em meio a um sorriso malicioso, para tentar argumentar em sua defesa, no intuito de amenizar a sua própria contradição.
— Tá bom — disse ela, em meio a um sorriso vermelho cor de sangue. Era tanto batom que ela nem parecia ter uma boca por detrás da maquiagem. Ainda sorrindo, ela pegou o cartão da passagem dentro da bolsa, que por ironia, era duas vezes maior que a saia, e mostrou-o ao motorista, que em vez de olhá-lo, não tirava os olhos das coxas robustas da jovem, candidata a miss minissaia. Ela passou a catraca, e ele olhou para trás; nem preciso dizer para quê, não é mesmo?
Enquanto isso, a senhora, pobre coitada, teve de andar um bom pedaço de chão para chegar a um ponto no qual pudesse esperar por outro ônibus. Com muita sorte, o próximo motorista não será tão gentil quanto o anterior, afinal não são todos que arriscam o emprego tendo de parar o ônibus em local proibido, para exibir, em público, tal virtuosa gentileza, uma gentileza na contramão.



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