terça-feira, 21 de julho de 2015

Vida Ausente, Morte Presente


Em maio de 2010, participei de um concurso de poesia e de miniconto promovido pela UnG (Universidade Guarulhos), instituição na qual me formei em Letras. Participei com três textos, usando três pseudônimos diferentes. Utilizei dois poemas e um miniconto. Obtive com dois deles o quarto e o quinto lugar, e com o outro, o primeiro. Em relação aos poemas, muito me foi dito que eu desse preferência a textos modernos, com versos livres e estrofes com número de versos variados. Obedeci com um dos poemas, mas usei um soneto também e, com ele, obtive o primeiro lugar.


A seguir, eis o poema e o prêmio, que muito me alegrou: 


Vida Ausente, Morte Presente

Não quero viver essa morte em vida!
Quero morrer a vida há muito morta!
Quero abraçar a Sorte tão querida,
 Que gentilmente bate à minha porta.

Quero morrer a vida não vivida!
Essa vida tão morta não me importa.
Quero morrer a vida falecida:
A morte em vida, já é vida morta.

Quero-te, ó minha Amiga tão temida,
Cobiça que minh’ alma não comporta,
Morte em vida não pode ser vivida,
Quero a morte da vida há muito morta.

Anosa secretária, ó Sorte amiga,
Se a morte é vida, em teu peito me abriga.

Plácido Rodrigues




segunda-feira, 6 de julho de 2015

O Cheiro da Leitura

O Cheiro da Leitura



Ainda lembro como se fosse agora. Era sempre por volta desse horário, quando o sol começava a se pôr. Minha mãe me chamava, e eu, que ainda contava os meus cinco anos, não hesitava, ia correndo. Ela se sentava sobre um batente de blocos enfileirados na horizontal, colocados cuidadosamente encostados a uma parede, que separava a nossa casa da do vizinho, na qual havia um belo quintal repleto de árvores diversas, em especial, um Pé de Laranja que ultrapassava o muro e nos presenteava com uma deliciosa sombra. Ela nunca esquecia o livro, pois esse era o motivo de ela me chamar para aquele local, onde as coisas eram mágicas, docemente mágicas. Eu me sentava ao lado dela e repousava a cabeça em seu colo. Ela me perguntava se eu estava preparado, e eu respondia que sim, sempre respondia que sim. Depois dessa parte quase que cerimoniosa, o livro era aberto, e uma bela história parecia saltar daquelas páginas.
Esse ritual foi seguido por algum tempo, talvez até por anos, mas eu não sabia o que realmente o tempo significava, tampouco agora que o faço valer dessa forma louca como todos fazem, inconscientemente, quando descobrirmos que um dia iremos morrer. Com o tempo, aqueles momentos preciosos deixaram de ocorrer diariamente. Eu crescia a cada dia, como qualquer criança saudável, com o diferencial de estar sendo alimentado pelo sabor enigmático da leitura e pelo cheiro verde de pomar que o vento trazia consigo do quintal do vizinho.
Um fato curioso sobre aqueles tempos é que minha mãe sempre levava o mesmo livro. Eu nunca parei para pensar como que podia haver tantas histórias dentro dele, mas isso não era importante para uma criança curiosa apenas em saber o que sua mãe leria. Cada dia havia uma bela e emocionante história. Confesso que algumas não eram tão boas, mas ela dava um jeito de ao menos deixá-las agradáveis de ouvir.
Toda vez que vejo a noite invadir o dia, dominando-o por completo, lembro-me daqueles dias incríveis. Às vezes, procuro um lugar tranquilo, e o silêncio parece trazer a voz dela, interpretando cada frase impressa naquelas páginas amareladas.
         Quando eu estava no colegial e já tinha o hábito de ler, podia eu mesmo escolher as histórias que me fariam companhia durante alguns dias, a ponto de me fazer sentir prenhe de cada personagem com quem me identificasse. Por alguns instantes, ou até mesmo por dias, eu podia sentir a alegria ou a aflição de cada uma delas. Sentia raiva de umas e compaixão por outras, de uma maneira tal que havia um quê de inexplicável.
         Minha mãe parou de ler. O que mais me chamou a atenção, durante muito tempo, foi que eu nunca a vi lendo para si nem sequer uma receita de bolo. Ela só o fazia para mim, exclusivamente para mim. Então descobri algo que me deixou triste e, ao mesmo tempo, emocionado; no entanto, não convém dizer, pois tudo se faz entender por si só. Fiquei calado. Chorei calado.
O tempo, implacável, continuou a passar, e minha mãe foi acometida por uma doença e perdeu a visão. Lembrando-me das leituras que ela fazia, resolvi retribuir o gesto e passei a ler para ela. Fiz isso por um bom tempo, e ela ficava quieta, parecendo respirar cada palavra que eu entoava.
Alguns anos após a doença que a deixou cega, enquanto eu arrumava algumas coisas dela, encontrei o livro que ela lia quando eu era pequeno. Reconheci-o pela capa. O título denunciava que da primeira até a última página havia apenas uma história e não várias como eu imaginara. Era, portanto, um romance. Isso confirmou o que eu já sabia e me deixou com um misto de sentimentos no peito. Havia muitas verdades nessa descoberta, mas a que mais me importava era o fato de esse gesto honroso de minha mãe ter-me feito tomar gosto pelo universo da leitura e, consequentemente, pela escrita. Finalmente eu poderia conhecer a verdadeira história contida naquele livro, mas eu queria compartilhá-la com a pessoa mais importante na minha vida: minha mãe. Num finalzinho de tarde, chamei-a para o mesmo local no qual ela leu durante minha infância. Contei-lhe qual era o livro que eu leria e percebi em seu semblante, numa expressão sutil, que ela sabia o que aquilo significava. E o significado não era apenas um gesto de gratidão de minha parte; era algo muito maior que isso; era uma forma de eu dizer que sabia de tudo e que ela não precisava se preocupar. Lembro-me de que nenhuma palavra foi dita a respeito disso. Prefiro que ainda seja assim, estimado leitor. E, embora eu tenha conhecimento da importância das palavras, faladas ou escritas, também sei quão grande é o significado de um silêncio.
         Passei dias para concluir a leitura, que era feita sempre no mesmo horário. Ao final da última frase, eu disse que era o fim. Minha mãe sorriu, e eu pude ler aquele sorriso. Ouvi um obrigado sair quase surdo por entre os lábios dela, mas eu disse que eu é que tinha de agradecer, e agradeci com um forte e afetuoso abraço.           
 Hoje, anos depois, minha mãe e tudo o que ela fez por mim estão somente na minha lembrança, dentro do meu peito e de alguns poemas que leio. Agora estou aqui sentado na mesma fileira de blocos, à sombra da laranjeira, escrevendo esse mundo mágico que vivi. Toda vez que sinto o cheiro vindo do quintal do vizinho, lembro-me daqueles dias e penso que esse é o cheiro da leitura. Escrever e colocar tudo aquilo que se sente num papel é mágico, e ler é mergulhar num mar em busca de um oceano de novidades.

PLÁCIDO RODRIGUES